Crítica

…) Lena Gal retira as suas memórias e projecta-as inteiramente, algumas ligadas à sua infância, por vezes dolorosas, num misto e numa confusão de sensações. Como se a sua vida passada fosse apenas uma memória forte, anímica e latente, outrora recusada, e presentemente convertida em imaginação potencial. Toda a natureza fascina-a pelo mistério que esta encerra e talvez também pela sua imortalidade. A sua pintura não se desliga do campo figurativo, apesar de se afastar da figuração realista, descritiva e historiada, no entanto subsiste uma narração temática de uma certa lógica, nascendo assim, uma coerência nas suas propostas visuais de um discurso referencial. Tende assim, a romper com esquemas de representação convencional. A pintora tenta neste contexto, não fugir ao figurativo, só que é um figurativo transformado, numa transfiguração permanente, numa realidade e num mundo muito próprios. A figura humana passa a ser o tema central, mas que funciona sobretudo, como um pretexto, para o exercício de pintura e do desenho. Figuras e corpos sequenciais estruturam deste modo, uma forte tendência para a captação de momentos, que são para a pintora inesquecíveis. Lena relembra-nos que somos feitos de uma coisa chamada «sentir» e que, no seguimento desta constante aproximação sensitiva, a visão que nos é oferecida é como uma imanência. A aproximação pictural da realidade da artista não se coloca ùnicamente na esfera do «visual», mas no plano sensitivo e táctil.(…)


MANUELA SYNEK
Historiadora e Crítica de Arte


(…) É nesta ambiguidade entre o telúrico e o contemplativo que se reconcilia a pintura de Lena Gal, nunca alheada da praxis mas, suficientemente também, distanciada desta, para que possa manter os voos à conquista do espaço e do sonho porque, pela sua própria natureza, cumprir-se-à nela igualmente, a Mulher e a Artista. (…)


AFONSO ALMEIDA BRANDÃO
Jornal de Notícias
10/08/2000


(…) A pintura de Lena Gal é uma mancha de cúmplices silêncios que se dão como derramados sobre formas prenhes de colorido. Há na sua pintura essa força intrínseca que emana do seu pequeno mundo cercado. Torrão posto sobre águas de ir-e-voltar. Húmido respirar com que se fecham os arvoredos, incontroladas ondas com que se abrem as fragas. E é por aí dentro que vagueiam os vultos fugazes que põem na vida o sentido do humano e do transcendente, que são a realidade e a alma de que a pintura não se dispensa como qualquer criador para temporalizar a sua obra (…)


VASCO HOGAN TEVES
(Jornalista da RTP)
1997


Pintura de densidades únicas entre nós – corpos, sombras, castanhos, odores, cores, – a obra de Lena Gal é hoje uma afirmação irresistível. Semi-ocultos mas não penúmbreos, semi-diluídos mas não esvaídos, os movimentos, os olhares, os gestos, os horizontes ganham nela luz e presença de singular repercussão, (…)
(…) Ver devagar um a um os seus quadros é emergir num universo fabuloso de tons intensos, onde o ser humano ganha uma pujança que nos envolve para sempre …


FERNANDO DACOSTA
(Escritor)
in catálogo “Um Universo Suspenso”


Tenho a honra de acolher Lena Gal, uma distinta artista portuguesa, na nossa comunidade de Providence, Rhode Island. Temos hoje a oportunidade de ver em conjunto uma série de poemas transmitidos pelas belissimas cores e pelo espírito da sua terra natal, a que a autora chamou “Universo Suspenso”. Os quadros de Mrs. Gal captam momentos que nos permitem a nós penetrar no seu país e no seu mundo interior, como artista e como mulher. (…) Lena Gal cristalizou momentos tanto de reflexão como de revelação. No seu trabalho, deparamos com reflexões que nos mostram os sonhos de uma jovem rapariga, o potencial por trás da força serena de uma jovem mulher de campo, os anseios da mulher da cidade, a sabedoria de uma mulher idosa. Revelações, um momento suspenso em que a vida pode ser alterada, surgem a cada uma destas mulheres, e também aos homens, nas suas mais variadas formas. (…)
(…) com estas imagens variadas, a artista chama a atenção não apenas para a vida exterior e interior das mulheres portuguesas, mas também para a própria aura que irradia de todo e qualquer ser humano, veiculando assim uma mensagem mais universal. (…)


STEPHEN OLIVER
(Museu da Rhode Island School of Design USA)
Exposição de Março de 2001


(…) A pintura de Lena Gal deve ser olhada devagar. A empatia surge, então, plena de serenidade. Comunhão perfeita. Talvez devido a uma cromática que joga inteligentemente com sombras e claridade, ressaltando a eficácia dos volumes que deixam transbordar as emoções sem as vulgarizar.


MARIA AUGUSTA SILVA
(Sombras e claridade numa pintura mágica)
Diário de Notícias
Maio de 1998

Lena Gal

O elogio da natureza feminina

A exposição da pintura de Lena Gal no Centro Cultural Casapiano constitui uma viagem iniciática ao universo feminino.

Trata-se de um percurso onde somos convidados a revisitar a cumplicidade existente entre MULHERES e a NATUREZA.

A pintura de Lena Gal permite-nos entrar no domínio do sagrado habitado pela MULHER mas também nos oferece a visão de uma expressiva subtileza erótica que percorre cada olhar , cada corpo destas mulheres que personificam a natureza humana, isto é, a aparente harmonia entre o sagrado e profano.

João Louro

Todo o discurso pictórico de Lena Gal é virado para a terra é para as pessoas. É o seu mundo de riqueza que lhe permite a criatividade de todas as coisas que se iluminam nas cores das suas obras extraordinariamente bonitas. É o gesto de uma linguagem expressiva que nem sempre se define nos traços mas que se adivinha. Esta é a vantagem da pintora quando a sua alma multifacetada de tantas experiências, ganha força, pega no talento e faz percurso de uma memória que desagua na mensagem colorida, proporcionando aos outros o desejo da viagem pelas figuras, pelas pelas terras, pelos tons esbatidos que os poetas exaltam pela liberdade que assumem.

Há uma ilha que surge na sua alma e se universaliza na sua linguagem pictórica; há as razoes da cor e da luz que se transfiguram no sonho que aos poucos se vai descobrindo na verdade do que é como obra artística. Evidentemente que a escola serviu-lhe de base, mas Lena Gal foge dos academismos para inventar um mundo real; para criar os caminhos que a sua imaginação, povoada de tantas coisas, lhe permite desfiar o tempo. Os olhos das mulheres que pinta têm mistérios e a saudade inexplicável do mar da sua ilha – S. Miguel. A sua obra é a exaltação de “Corpos da Terra no movimento do Sonho”.

Talvez tenha sido a ilha a culpada do seu sucesso, porque o mar atlântico crio-lhe a inquietação e o sonho – foi o ponto de partida para a sua obra que tem percorrido o mundo como traçado-de-união de terras e das suas artes.

Esta nova exposição no Funchal vai certamente constituir mais um êxito para a sua carreira.

Como titular da cultura do governo desta Região Autónoma, regozijo-me com esta mostra.

João Carlos Nunes Abreu

Secretário Regional do Turismo e Cultura
in catalogo “Da terra ao Céu” exposição Galeria Mouraria Funchal

MULHERES DAS BRUMAS

Nas brumas, elas são as formas quase indiferenciadas do ar. Movem-se como murmúrios, estátuas móveis emergentes da terra pulsante. A sua dança, ilusoriamente remota na densidade das névoas, combina o ar, a água e o fogo. Tudo na distância, como um apontamento poético a preceder a revelação que parecemos aguardar.

Acontece tudo e tudo se move entre elas e a terra. Enraizadas no solo estremecente, escalam montanhas de dor e cantam a vida que no seu ventre pulula. Calam a alma em choro com as flores do caminho, o cheiro do ar, a pele do filho ainda só seu, a oração apaziguante.

Tudo são prelúdios. Há coisas no ar, pressentimentos, passos que se adivinham. Prenúncios de uma manifestação por vir, o ventre a abrir-se, o choro das águas.

Nas mulheres que a névoa deixa adivinhar viajam impressões antigas como as rochas, segredos milenares, laivos de sonho, cantatas de sangue e mágoas, destruição e vida, gestos de amor na aurora a despontar.

Vão e vêm, nas brumas. Mãe, filha, filha, mãe, na tecelagem do eterno recomeço. Bordadas na aragem azulada pela mão da Deusa, caminham na aridez como um sopro divino, uma nota maior, concordantes com a terra e o mar, aspirantes aos céus, mulheres de asa entreaberta, mulheres prestes, tão prestes, a voar…

MARIANA INVERNO

Fundadora do PROJECTO Art for All

in catálogo Mulheres das Brumas – exposição S. Miguel, Açores